2 de agosto de 2011

A A

To trancada num banheiro imundo. Isso já teve ter mais de seis horas. Esta um calor infernal. Não sei se é dia ou se é noite. Estou com uma de minhas mãos cortadas. Há sangue seco nos punhos. Não enxergo mais do que a luz que vem da tela do meu celular seja capaz de iluminar. Não sei como cheguei aqui. Me lembro de musica, de pessoas sorrindo e do movimento da Terra. Tenho flashes de um sofá preto, um teto com candelabros modernos simulando velas e mais nada. Há um silêncio completo. Mortal.

Tento chorar, mas não me descem lágrimas. Minhas roupas estão encharcadas de suor. Mal consigo me levantar.

Já esmurrei a porta. Já chutei com toda minha força. Nada.

Não há área disponível para uma ligação. Em pouco tempo acabará a carga da bateria. Não me restará mais nenhuma luz.

O eco amplifica minha respiração. Tento ficar calma, mas começam a surgir os primeiros focos de um desespero que não sei se serei capaz de controlar. Lembro da respiração que aprendi na Ioga. Ioga é o caralho. Não consigo colocar em prática. Apenas respiro.

Jogo o feixe de luz em direção ao teto para ver se encontro alguma passagem de ar. Um basculante, um vidro. Nada.

Vejo no espelho meu rosto. Não há qualquer hematoma ou algo que acuse que fui violentada. Não há inchaço nem sangue. Minhas pupilas estão muito dilatadas. Preciso economizar o que resta de energia vindo do aparelho de telefone.

Urros, gritos, tudo em vão.

Em que diabos de lugar estou? Como vim parar aqui?

Meu braço direito esta dolorido. Como se tivesse feito muito esforço. Dor muscular. Entre a carne e o osso.

O espaço é pequeno, não dá para caminhar TRÊS passos para frente ou para trás.

A privada esta sem a tampa. Não há dejetos dentro, apenas uma água rasa. O cheiro vem do esgoto. Tem um ralo aberto, mas não vejo insetos. Da bica não sai água. Minha garganta esta muito seca. Minha boca esta rachada. Mal consigo engolir a saliva.

Coloco as mãos nos bolsos na busca por minha carteira, meus documentos, meu dinheiro. Não encontro. Apenas um filete de plástico vazio.

O calor me sufoca. Já tirei a blusa. Estou apenas de saia e botas.

ALGUÉEEEEMMM CONSEGUE ME OUVIRRRR CARALHOOOOOOOOOOOOOOOO??



Me lembro de estar com as minhas afilhadas ontem. Do sorriso delas. Da voz me chamando. Lembro de ter brigado feio com minha mãe. Lembro de ter tido um desejo enorme de morrer. Uma ânsia por sumir desse mundo. Uma necessidade de me libertar das minhas piores dependências. De ter encarado o fato de que sou uma covarde. De que vivo uma vida de mentiras, clandestina. De não conseguir fazer o suficiente para agradar as pessoas com quem convivo. Sempre foi assim. Mas ontem foi muito mais nítido. Lembrei da minha mãe aos berros comigo. Dos cachorros latindo dentro de casa. Das caixas de remédios que ela tomava vazios sobre uma pia lotada de louças sujas e garrafas de rum e Vodka. Não lembrei do meu pai chegando,senti a falta! A festa na escola que nunca nimguém estava presente, Muitas coisas começaram a vir na minha cabeça.



Sempre tive soluções para tudo, mas não sei o que fazer nesse momento.

Estou relatando cada detalhe para que isso faça o tempo passar. Na esperança de que alguém apareça e veja que aconteceu algum engano. Talvez tenha bebido demais na festa. Posso ter passado mal, tentei vomitar e acabei dormindo no banheiro. Talvez os funcionários tenham trancado tudo e ninguém me viu aqui.

Meus movimentos ecoam contra a parede de ladrilhos. No local onde havia uma lâmpada só existe o bucal e fios espalhados como se fossem cabelos descabelados.

Me sento e tento me acalmar. Fecho os olhos. Respiro com um pouco mais de ênfase na inspiração e procuro soltar o ar bem devagar. Tento ouvir a voz do meu professor da escola dizendo para puxar o ar com a cor azul e soltá-lo em cor amarela. O azul acalma. Por isso tem azul nas paredes dos hospitais. O amarelo dá vida, dá esperança.



Tento imaginar que estou num local aberto, descampado. Com uma grama bem verde e um céu com poucas nuvens. Miro o horizonte e vejo pequenas borboletas voando. Fixo nelas. Tento acompanhá-las no Voo. Como deve ser ter este poder?

De planar, voar sem destino, sem medo de cair? Como deve ser passar por cima das cidades, dos prédios, das árvores, dos seres humanos? Se afastar de tudo e vê-los caminhando feito formigas. Correndo com seus carros possantes. Como deve ser não ser contaminado por eles, por suas idéias, por seus desejos, por suas organizações? Como deve ser, apenas voar? Sem compromissos de horários, sem ter de pensar em dinheiro, em amor, em sexo. Sem ter de comprovar nada, nem perder seu tempo explicando o que ninguém quer entender. Sem precisar fingir. Deve ser uma boa sensação.



Sinto algumas dores abdominais, como se fosse uma cólica. Vontade de defecar. Tento prender. Já deve estar de dia. A temperatura esta aumentando. Estou me sentindo muito mal. Preciso beber um pouco de qualquer coisa que tire a sensação de ferrugem de meus lábios. Preciso molhar minha nuca. Meto a mão na água da privada e torço para que não esteja tão nojenta quanto estou. Passo a mão no pescoço e a água se mistura a meu suor. Me recuso a beber essa água. Jogo mais um feixe de luz em direção ao vaso sanitário. Não tem mais nada. Tento puxar a descarga, é inútil. Só estou eu e meus pensamentos nesse lugar podre.



Preciso de ajuda. Não sei rezar. Preciso pedir a Deus um auxílio. Mas sempre duvidei de sua existência. Será que ele levará isso em conta, agora que preciso de uma ajuda? Será que vai me jogar na cara: “Estas vendo? Sempre duvidou de mim, agora precisa do meu poder. Precisa de meus milagres. Quem você acha que vai te tirar desse lugar fétido, asqueroso? Agora reze para mim. Implore por ajuda. Prometa que nunca mais vai buscar prazer naquele mar de luxúria que você navega. Prometa que será uma mulher correta. Que levará meu nome a todos”. – Isso é uma troca Deus? - Me pergunto em voz alta. Ele responde. – “Silêncio. Você não esta em condições de questionar absolutamente nada. Não questionará mais daqui para frente. Se quiser sair dessa escuridão, terá de se comportar corretamente. Terá de aceitar minha palavra. Terá de respeitar minhas condições” – Fecho os olhos.



Não sei se sou capaz de sucumbir a desejos que não são meus. A histórias que não são minhas. A comportamentos que não me regem. Talvez eu possa mentir para Deus. Talvez eu possa enganá-lo, como muitos fazem em seus templos, igrejas. Talvez eu possa jurar o que eles lá fora desse banheiro sujo, juram diante de júris, de padrinhos e madrinhas, de juízes. Talvez eu possa enganar Deus e ele me deixe sair desse lugar assustador.



Deus.

- Sim.

- Se eu mentisse pra ti saberias?

- Basta que você saiba!

- Mas os homens que tanto mentem em nome do Senhor e para o Senhor, eles sabem?

- Sim.



Sinto uma vontade impossível de controlar e meu estômago expulsa um jato de um liquido branco. Tem cheiro de algo etílico misturado. Continuo tentando vomitar o que não tenho mais na barrida. Meus músculos se contraem. Não suporto mais... acho que vou... desmaiar.



Sinto nas costas a temperatura menor do chão que encontra-se úmido.

Deito minha cabeça e percebo a densidade desse lugar. O peso do mundo inteiro sob meu peito.

Fecho os meus olhos novamente e tento voltar ao campo verde e as borboletas voando.

Respiro azul e solto amarelo.

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