22 de maio de 2009

Se choro é porque posso chorar. Se não pudesse, me arrisco a dizer que tanto faria, já que é no meio de muito não poder.

Se não fosse permitido chorar lágrimas, talvez o fizesse em tinta sobre papel e escreveria molhado e úmido e molhado novamente. Até o seco.
Porque já sei que é sempre que eu escrevo como se chorasse, mesmo quando é um riso solto que me agita a pena. Aí posso escrever como se sorrisse alto como a alegria insistente do coração de um louco. Da alegria que não seca por mais que evapore.

E nessa falta de fato que excede na minha história, me arrisco a dizer que é o concreto que me impressiona.
Me impressionou a moça pequena parada em um ponto de ônibus, com pulseirinhas de contas azuis, como sua blusinha desbotada azul.
Ainda tive tempo de ver que em suas mãos tímidas havia cicatrizes e havia cor de sujo nos pés e na sandália pequena.
E o que ainda me atingiu foi a consternação acalmada e reticente no relance dos olhos da menina negrinha. E sua capacidade de não tê-los eternamente molhados, mas de ainda combinar pulseiras azuis com uma blusinha azul muito desbotada.
Estamos todos bastante neuróticos, é verdade.
Estamos mergulhados e nos afogando em questões e mais questões que nós mesmos criamos, quando aprendemos a criar.
Dispendemos toda nossa energia lutando contra dragões inventados por nós.
E quando já temos entretenimento para esquecer isso tudo,
alguém se lembra de si e nos lembra
de que estamos bastante confusos.

Estamos nos sentindo culpados e amarrados
e nos sentimos culpados até por não nos sentir culpados.
Achamos tanta coisa um absurdo,
sem nos lembrar de que o absurdo mesmo somos nós
e essas regras que fabricamos acerca de absurdos.

Estamos atormentados por tanta insegurança e tão sem sono.
Nossos olhos se preocupam em se grudar.
Condenamos inocentes e morremos culpados.
Detestamos mais de mil coisas
e detestamos muito mais não ter mais de mil mãos.

Somos incapazes de uma confissão completamente verdadeira aos nossos convives,
mas discursamos extensas teorias a respeito da verdade para a multidão.

Nos alegramos como cães por satisfações voláteis,
recorremos a mil artifícios de vida útil desprezível,
colecionamos relacionamentos substituíveis...

Não temos a menor condição de lidar com a alma pura, alma em si.
A inocência da alma nos é demasiado pesada,
e preferimos acreditar piamente que precisamos da vulgaridade da matéria.
Não sabemos lidar com o oco do Homem.
Recebemos a Covardia, como se seu nome fosse Proteção.

Ignoramos cada dia um pouco mais, na medida em que as informações chegam a nós.
Nos apressamos sempre e estamos sempre atrasados.
E, no auge de nossa loucura, procuramos por Deus, nos aproveitando do que é invisível para acreditar que vemos.

Estamos tão pressionados e neuróticos porque fazemos mal no simples estar imóvel
e corremos sério risco de não fazer bem nos movendo.

Estamos surpresos, na verdade,
são muitos fatos inacreditáveis,
são tantos compromissos inadiáveis,
são vidas surpreendentes adiadas.

Já não sabemos o que é absoluto.
E descobrimos ainda que, em casos extremos, o absoluto ainda se torna relativo.

E tudo tão duro que as pessoas estão ali e nós as amamos,
mas nem com essas cremos que ainda seja possível ser inteiros.

Atacamos pra nos defender.
Atacamos sempre pra nos defender de tão indefesos. Pobrezinhos.
As montanhas não se defendem de vento,
mas nós até do menor sinal de brisa.

Fingimos que há propósito no que não faz o menor sentido.
Fingimos bastante, aliás.
Aceitamos todo cinza por puro medo de preto
e nos despedimos patéticos do verde e do vermelho.
Não exigimos ética por duvidar na nossa própria.
Choramos sobre caixões de desconhecidos justamente porque perdemos 365 chances por ano de conhecê-los.

E não falo de sociopatas, ou de monstros, vamos ser francos.
Falo de ser pessoa.
“ Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a morte. Não reverenciam suas próprias vidas, mijam em suas vidas. As pessoas as caga. Idiotas fodidos. Concentram-se demais em foder, cinema, dinheiro, família, foder. Suas mentes estão cheias de algodão. Engolem Deus sem pensar, engolem o país sem pensar. Esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas. Seus cérebros estão entupidos de algodão. São feios, falam feio, caminham feio. Toque para elas a maior música de todos os tempo e elas não conseguem ouvi-la. A maioria das pessoas é uma empulhação. Não sobra nada para morrer. ”
meu coração é uma maquina de escrever
as paixões passam
as canções ficam
os poemas respiram nas prisões
pra ler um verso, ouvir,
escutar meu coração falar
até se calar a pulsação

meu coração é uma máquina de escrever
no papel da solidão
meu coração é...da era de gutemberg
meu coração se ergue
uma impressão: meu coração já era
quando ainda não era
a palavra emoção!

mas há palavras em meu coração
letras e sons
brinquedos de diversões...
que passem as paixões
que fiquem as canções
dos poemas dos batimentos
das teclas da máquina de escrever
meu coração é uma máquina de escrever ilusões...
Pedro Luis
Alguns dos meus queridos amigos cariocas têm mania de achar São Paulo
Paulo
parecida com Nova York.
Discordo deles. Só acha São Paulo parecida com Nova York quem não conhece
bem a cidade.

Ou melhor, quem a conhece superficialmente e imagina que São Paulo seja
apenas uma imensa Rua Oscar Freire.

Na verdade, o grande fascínio de São Paulo é parecer-se com muitas cidades
ao mesmo tempo e,
por isso mesmo, não se parecer com nenhuma.

São Paulo, entre muitas outras parecenças, se parece com Paris no Largo do
Arouche, Salvador na
Estação do Brás, Tóquio na Liberdade, Roma ao lado do Teatro Municipal,
Munique em Santo Amaro ,
Lisboa no Pari, com o Soho londrino na Vila Madalena e com a pernambucana
Olinda na Freguesia do Ó.

São Paulo é um somatório de qualidades e defeitos, alegrias e tristezas,
festejos e tragédias. Tem hotéis de luxo,
como o Fasano, o Emiliano e o L'Hotel, mas também tem gente dormindo
embaixo das pontes. Tem o deslumbrante
pôr-do-sol do Alto de Pinheiros e a exuberante vegetação da Cantareira,
mas também tem o ar mais poluído do país.

Promove shows dos Rolling Stones e do U2, mas também promove acidentes
como o da cratera do metrô
e o do avião da TAM em Congonhas.

São Paulo é sempre surpreendente. Um grupo de meia dúzia de paulistanos
significa um italiano, um japonês,
um baiano, um chinês, um curitibano e um alemão.

São Paulo é realmente curiosa. Por exemplo: têm diversos grandes times de
futebol, sendo que um deles
leva o nome da própria cidade e recebeu o apelido 'o mais querido'. Mas,
na verdade, o maior e o mais
querido é o Corinthians, que tem nome inglês, fica perto da Portuguesa e
foi fundado por italianos,
igualzinho ao seu inimigo de estimação, o Palmeiras.

São Paulo nasceu dos santos padres jesuítas, em 1554, mas chegou a 2007
tendo como celebridade o permissivo
Oscar Maroni, do afamado Bahamas.

São Paulo já foi chamada de 'o túmulo do samba' por Vinicius de Moraes,
coisa que Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini
e Germano Mathias provaram não ser verdade, e, apesar da deselegância
discreta de suas meninas, corretamente
constatada por Caetano Veloso, produziu chiques, como Dener Pamplona de
Abreu e Gloria Kalil.

Em São Paulo se faz pizzas melhores que as de Nápoles, sushis melhores que
os de Tóquio, lagareiras melhores
que as de Lisboa e pastéis de feira melhores que os de Paris, até porque
em Paris não existem pastéis,
muito menos os de feira.

Em alguns momentos, São Paulo se acha o máximo, em outros um horror.

Nenhum lugar do planeta é tão maniqueísta.

São Paulo teve o bom senso de imitar os botequins cariocas, e agora são os
cariocas que andam imitando
as suas imitações paulistanas.
São Paulo teve o mau senso de ser a primeira cidade brasileira a importar
a CowParade, uma colonizada e
pavorosa manifestação de subarte urbana, e agora o Rio faz o mesmo.
São Paulo se poluiu visualmente com a CowParade, mas se despoluiu com o
Projeto Cidade Limpa.
Agora tem de começar urgentemente a despoluir o Tietê para valer, coisa
que os ingleses já provaram ser
perfeitamente possível com o Tâmisa.
Mesmo despoluindo o Tietê, mantendo a cidade limpa, purificando o ar,
organizando o mobiliário urbano,
regulamentando os projetos arquitetônicos, diminuindo as invasões sonoras
e melhorando o tráfego,
São Paulo jamais será uma cidade belíssima.

Porque a beleza de São Paulo não é fruto da mamãe natureza, é fruto do
trabalho do homem.

Reside, principalmente, nas inúmeras oportunidades que a cidade oferece,
no clima de excitação permanente,
na mescla de raças e classes sociais.

São Paulo é a cidade em que a democratização da beleza, fenômeno gerado
pela miscigenação, melhor se
manifesta.

São Paulo é uma cidade em que o corpo e as mãos do homem trabalharam
direitinho, coisa que se reconhece
observando as meninas que circulam pelas ruas.

E se confirma analisando obras como o Pátio do Colégio (local de fundação
da cidade), a Estação da Luz
(onde hoje fica o Museu da Língua Portuguesa), o Mosteiro de São Bento, a
Oca, no Parque do Ibirapuera,
o Terraço Itália, a Avenida Paulista, o Sesc Pompéia, o palacete Vila
Penteado, o Masp, o Memorial da América
Latina, a Santa Casa de Misericórdia, a Pinacoteca e mais uma infinidade
de lugares desta cidade que não
pode parar, até porque tem mais carros do que estacionamentos.

São Paulo não é geograficamente linda, não tem mares azuis, areias brancas
nem montanhas recortadas.
Nossa surfista mais famosa é a Bruna, e nossos alpinistas, na maioria, são
sociais.

Mas, mesmo se levarmos o julgamento para o quesito das belezas naturais,
São Paulo se dá mundialmente
muito bem por uma razão tecnicamente comprovada.

Entre as maiores cidades do mundo, como Tóquio, Nova York e Cidade do
México, em matéria de
proximidade da beleza, São Paulo é, disparado, a melhor.

Porque é a única que fica a apenas 45 minutos de vôo do Rio de Janeiro. O
mais importante é que com essa
distância nenhuma bala perdida pode alcançar São Paulo!"

(Washington Olivetto é paulista, paulistano e publicit

tom jobim

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes, velhos fatos
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar
Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração
" quando secam os oásis utópicos,
estende-se um deserto de banalidade e perplexidade. "
Jürgen Habermas
Sobre a mesa, uma pasta, uma bolsa, um guarda-chuva preto (e um céu que não queria chover), adoçante, açúcar (esqueceste de pedir o mascavo), sorrisos largos, uma bandeja "suicida", uma fatia gigantesca de torta (que tu juraste que não comerias inteira), um café com leite, um expresso duplo, pequenos goles, grandes planos.E quatro mãos que matavam a saudade.

- Um dia, casa comigo?

- Caso.

PS: Porque de vez em quando a poesia não está nas linhas, entrelinhas, reticências, letras do Djavan, na voz da Marisa. De vez em quando a poesia habita dois corações. E apenas dois corações sabem do que são capazes.

(Natália Anson Lima - Na Cafeteria)

Composição: Caetano Veloso

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

Quando vens, poesia
Somos só eu e tu.
Equilibramo-nos na corda bamba
Para não cair no abismo onde habita a morte dos poetas.
Porque, se vens, poesia
Os relógios se equivocam
e as horas se acertam em segundos.
Porque só mergulhada em ti, poesia
eu me banho em existência.
Quando vens, poesia
O mundo encontra órbita,
a frivolidade, óbito.
Vem sempre assim, amada!
Vem apenas se quiseres,
Se não puderes te conter!
E deixai que eu morra seca, faminta
Se não desejares vir.
Deixai que eu ande desertos
procurando por palavras belas
enquanto decides se vais voltar a mim e ser só
minha poesia.
Porque quando nos casamos, poesia
Eu já sabia que não serias corriqueira
eu já sabia que eras cara e não tão cotidiana
E, talvez, nem tão minha
Mas não tenho outra liberdade
se não esperar por ti aflita.
Se vens, poesia
Meus dias são milhares de sóis
Minha saliva é fonte eterna
Minhas mãos atravessam todos os seios
E todas as minhas roupas são cobertas de flores.
Vens como estação de semear
E me deixas esperando colher eternidade.
Fernanda Lobo
tunico
O novo homem

O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objeto
fará escultura.
Será neoconcretos
e houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como flor(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto
:"Nove meses, eu?
Nem nove minutos."
Quem já conheceu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaioe,
per omnia secula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
"Talvez eu seja
O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tâo sem medida
Densa e clandestina

Que a bem da vida
A carne se fez sombra.
Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcansáveis
Coisas mortas.

Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas."

Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão

Há um passado no meu presente
Um sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão

E me fala de coisas bonitas
Que eu acredito
Que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito
Caráter, bondade alegria e amor

Pois não posso
Não devo
Não quero
Viver como toda essa gente
Insiste em viver

E não posso aceitar sossegado
Quaquer sacanagem ser coisa normal

Bola de meia, bola de gude
O solitário não quer solidão
Toda vez que a tristeza me alcança
O menino me dá a mão

Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto fraqueja
Ele vem pra me dar a mão
Eu, outro dia me lembrei de você,
Ouvindo uma canção que pudesse dizer
Como eu, como tu, como velhos tratantes
Como velhos amigos, como velhos perigos,
Como grandes amantes nos poucos instantes de amor

Eu, outro dia me esqueci lentamente,
Ouvindo a razão na palavra de ordem corrente
E que eu, e que tu, e que todos os passos,
E que todos os beijos, e que os longos abraços,
E que os longos desejos não caiam aos pedaços.
Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta pro desfecho da festa
Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água