22 de maio de 2009
Se não fosse permitido chorar lágrimas, talvez o fizesse em tinta sobre papel e escreveria molhado e úmido e molhado novamente. Até o seco.
Porque já sei que é sempre que eu escrevo como se chorasse, mesmo quando é um riso solto que me agita a pena. Aí posso escrever como se sorrisse alto como a alegria insistente do coração de um louco. Da alegria que não seca por mais que evapore.
E nessa falta de fato que excede na minha história, me arrisco a dizer que é o concreto que me impressiona.
Me impressionou a moça pequena parada em um ponto de ônibus, com pulseirinhas de contas azuis, como sua blusinha desbotada azul.
Ainda tive tempo de ver que em suas mãos tímidas havia cicatrizes e havia cor de sujo nos pés e na sandália pequena.
E o que ainda me atingiu foi a consternação acalmada e reticente no relance dos olhos da menina negrinha. E sua capacidade de não tê-los eternamente molhados, mas de ainda combinar pulseiras azuis com uma blusinha azul muito desbotada.
parecida com Nova York.
Discordo deles. Só acha São Paulo parecida com Nova York quem não conhece
bem a cidade.
Ou melhor, quem a conhece superficialmente e imagina que São Paulo seja
apenas uma imensa Rua Oscar Freire.
Na verdade, o grande fascínio de São Paulo é parecer-se com muitas cidades
ao mesmo tempo e,
por isso mesmo, não se parecer com nenhuma.
São Paulo, entre muitas outras parecenças, se parece com Paris no Largo do
Arouche, Salvador na
Estação do Brás, Tóquio na Liberdade, Roma ao lado do Teatro Municipal,
Munique em Santo Amaro ,
Lisboa no Pari, com o Soho londrino na Vila Madalena e com a pernambucana
Olinda na Freguesia do Ó.
São Paulo é um somatório de qualidades e defeitos, alegrias e tristezas,
festejos e tragédias. Tem hotéis de luxo,
como o Fasano, o Emiliano e o L'Hotel, mas também tem gente dormindo
embaixo das pontes. Tem o deslumbrante
pôr-do-sol do Alto de Pinheiros e a exuberante vegetação da Cantareira,
mas também tem o ar mais poluído do país.
Promove shows dos Rolling Stones e do U2, mas também promove acidentes
como o da cratera do metrô
e o do avião da TAM em Congonhas.
São Paulo é sempre surpreendente. Um grupo de meia dúzia de paulistanos
significa um italiano, um japonês,
um baiano, um chinês, um curitibano e um alemão.
São Paulo é realmente curiosa. Por exemplo: têm diversos grandes times de
futebol, sendo que um deles
leva o nome da própria cidade e recebeu o apelido 'o mais querido'. Mas,
na verdade, o maior e o mais
querido é o Corinthians, que tem nome inglês, fica perto da Portuguesa e
foi fundado por italianos,
igualzinho ao seu inimigo de estimação, o Palmeiras.
São Paulo nasceu dos santos padres jesuítas, em 1554, mas chegou a 2007
tendo como celebridade o permissivo
Oscar Maroni, do afamado Bahamas.
São Paulo já foi chamada de 'o túmulo do samba' por Vinicius de Moraes,
coisa que Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini
e Germano Mathias provaram não ser verdade, e, apesar da deselegância
discreta de suas meninas, corretamente
constatada por Caetano Veloso, produziu chiques, como Dener Pamplona de
Abreu e Gloria Kalil.
Em São Paulo se faz pizzas melhores que as de Nápoles, sushis melhores que
os de Tóquio, lagareiras melhores
que as de Lisboa e pastéis de feira melhores que os de Paris, até porque
em Paris não existem pastéis,
muito menos os de feira.
Em alguns momentos, São Paulo se acha o máximo, em outros um horror.
Nenhum lugar do planeta é tão maniqueísta.
São Paulo teve o bom senso de imitar os botequins cariocas, e agora são os
cariocas que andam imitando
as suas imitações paulistanas.
São Paulo teve o mau senso de ser a primeira cidade brasileira a importar
a CowParade, uma colonizada e
pavorosa manifestação de subarte urbana, e agora o Rio faz o mesmo.
São Paulo se poluiu visualmente com a CowParade, mas se despoluiu com o
Projeto Cidade Limpa.
Agora tem de começar urgentemente a despoluir o Tietê para valer, coisa
que os ingleses já provaram ser
perfeitamente possível com o Tâmisa.
Mesmo despoluindo o Tietê, mantendo a cidade limpa, purificando o ar,
organizando o mobiliário urbano,
regulamentando os projetos arquitetônicos, diminuindo as invasões sonoras
e melhorando o tráfego,
São Paulo jamais será uma cidade belíssima.
Porque a beleza de São Paulo não é fruto da mamãe natureza, é fruto do
trabalho do homem.
Reside, principalmente, nas inúmeras oportunidades que a cidade oferece,
no clima de excitação permanente,
na mescla de raças e classes sociais.
São Paulo é a cidade em que a democratização da beleza, fenômeno gerado
pela miscigenação, melhor se
manifesta.
São Paulo é uma cidade em que o corpo e as mãos do homem trabalharam
direitinho, coisa que se reconhece
observando as meninas que circulam pelas ruas.
E se confirma analisando obras como o Pátio do Colégio (local de fundação
da cidade), a Estação da Luz
(onde hoje fica o Museu da Língua Portuguesa), o Mosteiro de São Bento, a
Oca, no Parque do Ibirapuera,
o Terraço Itália, a Avenida Paulista, o Sesc Pompéia, o palacete Vila
Penteado, o Masp, o Memorial da América
Latina, a Santa Casa de Misericórdia, a Pinacoteca e mais uma infinidade
de lugares desta cidade que não
pode parar, até porque tem mais carros do que estacionamentos.
São Paulo não é geograficamente linda, não tem mares azuis, areias brancas
nem montanhas recortadas.
Nossa surfista mais famosa é a Bruna, e nossos alpinistas, na maioria, são
sociais.
Mas, mesmo se levarmos o julgamento para o quesito das belezas naturais,
São Paulo se dá mundialmente
muito bem por uma razão tecnicamente comprovada.
Entre as maiores cidades do mundo, como Tóquio, Nova York e Cidade do
México, em matéria de
proximidade da beleza, São Paulo é, disparado, a melhor.
Porque é a única que fica a apenas 45 minutos de vôo do Rio de Janeiro. O
mais importante é que com essa
distância nenhuma bala perdida pode alcançar São Paulo!"
(Washington Olivetto é paulista, paulistano e publicit
tom jobim
Já conheço os passos dessa estradaComposição: Caetano Veloso
Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
Queimará arruda
e do não-objeto
fará escultura.
Será neoconcretos
e houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como flor(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto
:"Nove meses, eu?
Nem nove minutos."
Quem já conheceu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaioe,
per omnia secula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tâo sem medida
Densa e clandestina
Que a bem da vida
A carne se fez sombra.
Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcansáveis
Coisas mortas.
Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas."
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão
Há um passado no meu presente
Um sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão
E me fala de coisas bonitas
Que eu acredito
Que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito
Caráter, bondade alegria e amor
Pois não posso
Não devo
Não quero
Viver como toda essa gente
Insiste em viver
E não posso aceitar sossegado
Quaquer sacanagem ser coisa normal
Bola de meia, bola de gude
O solitário não quer solidão
Toda vez que a tristeza me alcança
O menino me dá a mão
Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto fraqueja
Ele vem pra me dar a mão
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta pro desfecho da festa
Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água









