9 de agosto de 2009

O amor que mata!

O amor mata.
Sim o amor, o homicídio, o ódio e a ausência da razão são amigos íntimos. Assim como a manipulação da mídia, o poder, o dinheiro e a corrupção andam de mãos dadas. A essência humana é conflituosa e uma vez que um ser humano decide partir para o tudo ou nada através da violência fica nítido que naquele momento naquele espírito a consciência não habita mais.

A paixão é uma doença, com sintomas claros, com tempo de duração.
O amor é estranho, digo, o amor entre homem e mulher ou entre parceiros do mesmo sexo para ser mais abrangente. Esse amor romântico que tanto se vende nas novelas e nos filmes. Esse amor que idealizamos e buscamos em nossos pares. Esse amor que não respeita a individualidade, que é mais posse do que vida, que é mais medo do que liberdade. O amor que não permite passos além de suas vistas, esse amor que muitos de nós alimenta.
Não é amor.
O que é de fato amor?

Se não estiver comigo, não ficará com ninguém.
Eu morreria por você.
Eu mataria por você.
Eu mentiria por você.

Esse amor não está na verdade, está na proteção a ela. Esse amor não está no coração, está no centro do peito bem ao lado da angústia. Ao ser amado o amor se revela uma grande corrente de energia vital. Ao ser rejeitado o amor se transforma em mágoa, a mágoa pode se dividir em saudade, em tristeza, mas pode se amigar ao ódio e o ódio não poupa esforços para se transformar em vingança e a vingança é impulsiva e ao dominar uma mente, powwww, pode ter um trágico fim.

Humanos gostam de finais felizes, contudo tem predileção por tristes fins. Desses que se tornam avalanches de pensamentos, que geram conflitos de opinião, que vendem jornais, revistas e comerciais de TV, que podem promover um jornalista, que podem alavancar um ótimo bônus para quem conseguiu o melhor ângulo. Rendem textos, opiniões de especialistas, críticas fundamentadas e outras tantas sem qualquer racionalismo presente. Tristes fins servem de exemplo, finais felizes para muitos são incompatíveis com a realidade. A realidade é tão escorregadia que não sabemos ao certo como defini-la.

O amor tem várias faces, mas certamente a mais comum para muitos é a do sofrimento. Pois uma vez que se está amando, não se quer que esse amor termine, porém nada é eterno e sendo assim, apostar num amor deveria ser também comprar a idéia de que um dia, talvez, ele possa terminar. Deveria ser assim, mas quem entra numa relação pensando no seu fim?
Esse amor é egoísta e para nos protegermos é que juramos fidelidade, juramos eternidade, inventamos símbolos que representam o acordo entre os casais.

Coloque esta aliança e jure para mim que nunca me deixará.
Coloque este anel para que todos possam ver a quem pertence.
Vamos diante de Deus proclamar nossa devoção ao formato que garanta a nós um final feliz.

Sorte daqueles que conseguiram manter este pacto com dignidade.

Esse amor assassino é uma patologia de tal sentimento. É a esquizofrenia que ganha forma e se faz presente.
É o plus da posse, do medo, da insegurança. É o auge da cegueira a qual nos submete. Esse amor não é somente um deficiente visual, é um deficiente auditivo, é um deficiente mental, mas é também um eficiente mecanismo de existência. Amar é sentir-se vivo e a contradição está justamente ai. Quando estamos nos sentindo mais vivos é quando não estamos sentindo mais nada ao nosso redor. Só o amor, só o que nos faz bem. Shopenhauer já dizia viver é sentir dor. O prazer é a ausência dessa dor e nós estamos constantemente buscando o alívio e quando esse alívio não se encontra mais porque o ódio é gêmeo e também deficiente então a morte é o melhor remédio.

Uma vez que se começa um seqüestro, não tem mais volta. Não tem como se arrepender. O seqüestro é um crime hediondo tanto para o criminoso quanto para o refém, pois não permite mudar de idéia. Não estamos falando do seqüestro premeditado para ganhar dinheiro, esse não precisa ser analisado, pois como o assalto a banco ou como a tortura é um crime profissional. Falamos do seqüestro por desespero, esse que acompanhamos atentos é o que na maioria das vezes tem conteúdo e ingredientes para se tornar um futuro documentário ou uma atração de TV. Como foi o do ônibus 174. O que era para ser somente um assalto virou uma megaprodução de cinema e terminou como o Diabo e os humanos gostam, com sangue e morte ao vivo e a cores.

Esse rapaz que saiu em busca de vingança, armado e invadiu a casa mantendo a ex-namorada e outros jovens como reféns, estava completamente movido pela paixão ao ódio. O ódio também apaixona os humanos (as guerras são as melhores prova disso). Foram cem horas de negociação. Imagino quantos pensamentos não se passaram por aquela cabeça completamente perturbada, acuada, distorcida, amamentada pelo desejo de acabar de uma vez por todas com a dor que estava sentindo no peito, na alma e com a causadora de tal transtorno. A rejeição é insuportável para alguns. Independente de machismos ou “achismos”, ali não estava apenas um jovem homem e uma jovem mulher, ali estava, uma alma desesperada e uma menina que se permitiu por um tempo viver o que outras milhares de adolescentes vivem: a descoberta do amor. Só que nesse caso prematuramente ele veio acompanhado de seus amigos íntimos e essa conjuntura rara nunca termina bem.

Ao se transformar num seqüestro, o que poderia ser um acerto de contas, ou uma tentativa de retaliação, ou uma ameaça, ou qualquer outra atitude menos grave, torna-se um caminho com apenas duas possibilidades, a privação da liberdade ou a morte. Na cabeça de um jovem de 22 anos, lidar com todos estes acontecimentos após ser movido por um impulso violento que por sua vez fora criado por uma rejeição que por sua vez é reflexo do termino de um relacionamento que por muitas vezes é colocado como objetivo principal na vida de uma pessoa e que por fim é idealizado com algo eterno, não deve ter sido realmente simples. Aceitar morrer ou ser preso.
Como?
Em algum momento depois da perda da razão o espírito deve ter voltado ao corpo e concluído, estou fodido, não tem mais volta, não tenho saída. Não há o que fazer senão apenas adiar a conclusão. Daí todas as horas de espera.

Nesse momento deslocamos as atenções do amor e do jovem e da loucura e entregamos a quem deveria ter competência de solucionar o problema do amor, do ódio e da vingança com razão e cautela, a polícia. E o que aconteceu?

Uma adolescente recebe um tiro na cabeça e outro na virilha, a outra adolescente que havia saído e retornara para negociar (????) recebe uma bala na boca e por fim o rapaz de 22 anos sai algemado e vai para seu destino natural, a prisão, de onde provavelmente jamais sairá sem danos permanentes no corpo e na alma.
Uma família perde uma filha, outra família perde seu filho, se salva apenas aquela que tentou fazer o papel que a polícia deveria fazer.

Os policiais paulistas envolvidos no caso, dizem que só invadiram o cativeiro após ouvir disparos. Os populares que estavam curiosamente acompanhando o caso de perto garantem que não foram ouvidos qualquer disparo antes da invasão. Numa entrevista hoje a tarde um Coronel diz que os diálogos entre os adolescentes envolvidos estavam sendo monitorados e pareciam mais conversas entre amigos e que jamais esperariam uma conclusão como aquela. O fato é que, nada vai trazer de volta a vida da jovem menina.
O despreparo dos profissionais envolvidos mais uma vez será colocado em questão.

O que me parece é que faltou razão a todos que participaram deste fatídico episódio e que não faltará assunto ao longo de toda a semana para que possamos explorar esse nosso gosto pela tragédia.

O amor, o homicídio, o ódio e a ausência de razão são amigos íntimos.
A polícia deveria saber bem disso antes de entrar em ação diante das câmeras de TV.
(Lulu)