Saindo pelos poros.
Eu jogo sabão em pó no chão e depois um balde de sangue para que eles possam escorregar e se melar em mim.
Eu cuspo para o alto e abro a boca na esperança de que o escarro volte pro lugar de onde saiu.
Eu abro a janela e leio em voz alta um texto sem qualquer sentido para o transeunte que cruza o meu quintal.
Buganvílias preenchem de cores cada palavra mal dita enquanto os carros sussurram suas canções monótonas.
Eles vão. Para onde vou?
Sou o constrangimento num cercadinho de zebrinhas descoloridas com água oxigenada.
E sou a discórdia na hora do almoço em família enquanto todos engolem o arroz com feijão a seco disfarçando seus sorrisos amarelos entre olhares de dó. E sou a escapada sem aviso. E quero pintar as paredes de cor de abóbora para depois pendurar quadros com desenhos infantis. Meus velhos desenhos infantis, com casas sem telhados e um córrego descarregando a fúria das águas vindas do alto da montanha que por lá imaginei.
Eu viro as noites em claro com medo do escuro. Vasculho os armários em busca de algum vestígio de mel. Perfuro o espelho e não encontro absolutamente nada do outro lado.
Com as mãos movo o balanço para cima e para baixo.
Quando perdi a inocência me transformei num atalho para o abismo e quando olho para o fundo, dedico minha coragem ao desejo de me atirar de cabeça e minha cabeça está vazia como o abismo. Mas fora um Tão belo sonho. Tudo diferente. Era tudo tão mais real enquanto tentava desmontar o antigo aparelho de TV no intuito de tirar aquelas pessoas lá de dentro para que pudessem me prestar companhia. Arranquei o fio e pendurei no teto. Sentado no chão fiquei me imaginando ali. Pendurado.
Está um lindo dia de sol. Vamos todos andar por ai. Podemos servir.
Quando me olha e sente vergonha, é de mim que te envergonhas?
Quando não entendes quem sou, é de mim que sentes pena?
Que bonitinho. Seria tão mais divertido se sentíssemos os mesmos impulsos. Um estalo de indiferença é o tapa na cara de quem subiu no muro para não ter de atuar. Rasgo seu contrato e jogo no lixo, tem cinquenta outros querendo o seu lugar e quantos querem o meu?
De novo não!
Que besteira, não havia percebido que havia tapetes no chão.
Veja a poça que se formou...
É meu sangue com sabão em pó.
Só isso.
Saindo pelos poros.