Pensei em te dizer...
Cortei os pulsos e deixei o sangue escorrer dentro do copo de vidro.
Estava quente e emplastado numa cor vermelha escura como o coração que oferecia as ofertas para o dia dos namorados no shopping Center. O dia amanheceu e ainda não morri, nem de medo, nem de solidão, nem de amor.
O estado paranóico que instiga minha mente a pensar em partir minha própria cabeça ao meio não é capaz de sucumbir ao impulso de apertar o gatilho.
Já comprei minha passagem para o inferno.
Cinco cartelas inteiras de remédios para esquecer quem sou poderiam facilitar muito a percepção de que o trilho chegou ao fim. Talvez seja a hora de escrever uma cartinha de despedida e imaginar quem serão os convidados para o meu enterro.
Você vai chorar dois ou três dias e depois achará melhor que eu tenha partido sem deixar um recado com a voz embriagada no seu telefone celular.
Conte a todos quem eu fui e o que fiz e não se esqueça de dizer quem sou.
Cuidado ao vasculhar minhas coisas, meus segredos e minhas gavetas.
Entre meus livros tem anotações importantes, se achar conveniente pode vendê-los a um preço justo, aqueles que não interessam a ninguém doe para algum orfanato, para alguma igreja, para alguma escola, sei lá, não estarei mais preocupada em esconder o que tenho vivido na sua ausência.
O que me resta ainda de sangue no corpo escorre como a areia de uma ampulheta. Em pouco tempo vou desmaiar, apagar e provavelmente desaparecer desse mundo.
Não terei mais cobranças, gritos e nem as recordações de todas as vezes que senti culpa por estar apenas vivendo o que considerei importante, verdadeiro e leal a mim mesma. Esse egoísmo evidente poderá servir para quando quiser falar mal de mim num momento de ódio.
O paradoxo desse instante entre a vida e a morte é perceber que não fui uma bom filha, uma bom irmã e nem uma boa companheira, embora seja previsível que vocês venham a relembrar momentos divertidos, pensamentos inteligentes ou atitudes louváveis. É mais fácil sem dúvida nenhuma elogiar um morto.
A lâmina que usei para dar o talho na artéria que agora expele toda esta cor escarlate jaz sobre a pia do banheiro. O copo de vidro transbordou.
Sinto frio e começo a crer que não existe nada após este estágio e que todo aquele mistério de luzes e pessoas que aparecem para buscar as almas é só mais uma invenção para amenizar o medo do desconhecido. Talvez o fato de ter tido o privilégio de escolher meu próprio meio de debandar daqui é que pode ter me colocado de castigo para toda a eternidade... Não se admite nesse mundinho de hipocrisia e demagogia barata que alguém acione o botão de desconectar. Isso soa como covardia. Bulhufas, que diferença faz
A última canção que escuto é o som da voz da minha afilhada cantarolando alguma melodia inocente. Diga a ela o quanto a amei.
Minha amada e querida mãe dorme tranqüila, dei-lhe um beijo na testa antes dessa partida e a louvei como a redenção do que pude fazer de melhor.
Por todos os julgamentos que passei, ninguém foi mais rigoroso do que eu mesma no veredicto final.
A morte tem dentes amarelos, mas sorri com certo conforto.
Essa é a minha fantasia de suicídio.
Mas, não foi dessa vez.
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