19 de julho de 2010

Disposição ao engano.

Para caminhar ao seu lado foi preciso aprender outro ritmo.
Suas pernas, muito maiores, ensinaram a correr.
Difícil, apesar do alegre compasso. Mais alto. Mais largo.
Prazeroso amor. Quase delinquência.
Aconteceu assim, sem querer.
Num domingo, descendo a rua augusta.
Que ideia foi aquela que funcionou?
Era outono e o vento no rosto enxugou as lágrimas.
Abriram seus olhos. Libertos.
Para acompanhá-lo. Desde então, teve que fazer os olhos,
preguiçosos que eram,
percorrerem mapas de geografia.
Matéria esta ignorada por ela
desde o início de vida escolar.
Olhos estes jamais navegados pelos
caminhos por onde andou.
Não se assustou, nem deslumbrou e por vezes,
reunidos, achou chato. Um porre. Um saco.
Mas calou. Seus olhos sempre estiveram por
demais ocupados com detahes.Desde os oito, os olhos dela eram viciados
em estantes alheias. Adoravam as da pequena
biblioteca do colégio em que estudava.
Percorria-as através de suas cores até
ao lugar mais alto que podia enxergar.
De óculos escolhia, apontando para o alto.
Pequena e dona grandes dores de cabeça,
recomendaram-lhe óculos para descanso.
Puro engano. Jamais descansou com eles.
Esta parceria não levava a regalias.
Literatura ou filosofia, na era dos óculos ela
se desafiava o tempo inteiro. Virou hábito.
Começava escolhendo sempre o
livro mais difícil de alcançar. De ler, folhear.
Sem preguiça. Esqueceu dos clássicos.
Ignorou “Polyana”, mas “O Bichinho da Maçã”
lhe fora inesquecível. Por isso não houve à eles,
os olhos, falta de lazer. Nem à ela.
Nem aos óculos. Nem viagens.
Muito menos histórias para contar. Mas como explicar estas diferenças de olhar entre eles?
Ela e ele.
Ou o que fazer com elas, as diferenças?
Somar? Multiplicar? Sonhar?
Seriam possíveis, eles, tão diferentes no modo de ver a vida?A impressão que fica é que ela sempre esteve aqui.
Sem sair do lugar, aguardando ele chegar.
Para contar-lhe com detalhes o mundo do lado de lá.
Enquanto mantém sem disfarces os olhos fixos na estante mais próxima.